domingo, 22 de maio de 2011

METÁFORA DA MERENDA ESCOLAR

            

              Bem falou ontem – 1982 – Gilberto Gil com muita propriedade, que poeta que é poeta pra falar de sua meta quer dizer o inatingível, isso para muitos é pouco visível!

            Foi tanto flagra e supervisão, um mês de investigação para o resultado divulgar aquilo que só em pensar é náusea pra vomitar! Comida estragada, de qualquer jeito armazenada, em vez de ser mui bem conservada para a fome ser saciada.  

            “Uma boa alimentação, coma frutas e legumes”, diz o recado no mural enquanto na prática tratam discentes de forma animal! Algumas Escolas "Modelos" de Ensino Integral passarelam feshionweekikamente sobre holofotes nos canais de Telealienação, sem falar nas tão-tão confiáveis publicações periódicas querendo que o povo VEJA notícias tendenciosas, não esquecendo a Fantástica Hegemonia do Império Astro-Global, enquanto o alunado anseia por provisão, qualidade de refeição, EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO e EDUCAÇÃO!  Mas o Horário Nobre do Progresso Escolar é ver barata cirandar, enquanto nas cozinhas públicas os gatos adoram sapatear, a panela é design de decorar, o macarrão gostoso-bichado e o biscoito mofado!

            Isso é prato cheio para descer lenha na bestialização que tem enchido a gorda pança-porca dos Doutos da VIP-Administração! Estes têm lata cheia de parola enquanto a todos pensam que enrola, sobrando o pútrido alimento que qualquer um achará nojento, engulha até cabra e jumento!

            Certamente os Chefões da cainçada também devem partilhar em suas Casacaninas as mesmas carnes moídas expostas ao sol e sem refrigeração, por isso, minha Boca-de-lata só consegue pedir aos bons glutões: LATA! Pois se já saborearam esta tão boa Ração, estão de conchavo com o instinto CÃO!

            Êta boa Educação, palmas para a santa estatística e por tão magnânima logística!

            Fora! Lata infeta da mancomunação, do descaso e da corrupção! Cuspa fora sua meta cega, a disputa burra! Façam Banquete para quem precisa de Educação, respeitem o direito do cidadão, não intoxiquem o Presente-Futuro da Nação!

            Como concluiu Gil...

                                   Deixe a sua meta fora da disputa
                                   Meta dentro e fora, lata absoluta
                                   Deixe-a simplesmente metáfora.






Simeia de Castro
Domingo, 22 de maio de 2011. 

Quero ser professora

Por Fernanda Paiva

Meu pai sempre me dizia para eu não ser professora, mas eu não entendia o porquê, pois sempre achei a arte de ensinar muito bonita. Eu até dava aula para os meus amigos, estes sempre diziam: “você ainda vai ser professora”.  Mas eu negava todas às vezes, afinal não sabemos sobre o dia de amanhã, por isso nunca diga nunca. Ouse, GRITE.  Agora eu cresci, tenho 17 anos, já sei qual profissão seguir, a de professora. De quê disciplina? Deixe-me pensar...Língua Portuguesa.  Isso mesmo! Disse a minha mãe, a meu pai e a meu irmão, que vou ser professora da minha língua materna. Agora falei bonito, igualzinha a uma professora de verdade.

Na universidade, me ensinaram sobre a chamada criticidade. Mas o que é ser crítico? Eles me diziam uma coisa, mas eu percebia em seu discurso, outra coisa. Teoria ou prática? Penso que haja uma incompreensão na construção feita em torno do conhecimento crítico – falei bonito - não apenas no ensino superior, mas em outros níveis de ensino.

Muitos dos meus professores adoravam achincalhar os alunos, não sei por quê. Ah, eu quero ser uma crítica. Posso? Nas escolas, pais e alunos também achincalham professores. Ademais, as obras e autores também eram achincalhados pelos docentes. Que discurso estereotipado! Cadê a elegância da ética-moral da educação? Nesse momento, falar bonito não é o bastante.

Agora eu entendo o porquê de meu pai não me querer como professora. Ele temia que eu fosse doutrinada sob a lógica do silêncio, da passividade.

sábado, 21 de maio de 2011

As línguas variam?

Sim, as línguas variam. A variação lingüística é algo recorrente na nossa vida. Entender que as línguas variam não é algo tão problemático assim. Existem várias línguas pelo mundo afora e não precisamos ir tão longe para perceber essa heterogeneidade presente nas línguas.
No Brasil, falamos o português, mas sabemos que há outras línguas. As línguas indígenas são exemplos de variação da língua, dentro do nosso país. Estreitemos nosso assunto e vamos para as variações dialetais existentes, que podem acontecer de estado para estado assim como dentro de um mesmo estado. Tomemos como exemplo as variações no estado da Paraíba, que podem acontecer no léxico, na fonética, na morfologia e até mesmo na sintaxe dos vocábulos. Os fatores que influenciam em todas essas variações são: a escolaridade, os aspectos sociais e as diversas situações que envolvem a fala.
Para melhor compreensão desse estudo tomemos algumas variações ocorridas na Paraíba. O apagamento do –r nos vocábulos, como por exemplo, na palavra: “andar” que se transforma em “andá”; a queda do grupo –nd, comprovado na palavra “fígado” que simplesmente se transforma em “figu” , e outros fenômenos como a monotongação na palavra “beija” que vira “beja”. Para tantas variações vemos como as línguas são flexíveis e podem ser modificadas e utilizadas de formas diferentes em contextos que visam à comunicação.
Judithe Genuíno Henrique 

Doutor Casmurro

À discente que jubilou-me


            Sou o portador dos olhos de ressaca.
            Eis aqui quem traiu o desejo, por tempos desprezou o arrimo companheiro para afogar-se nas ondas dos livros, tombando enfados escritos, inquéritos enguiços...
          Certamente permanecerás intrigado por não revelar-lhe onde e qual conteúdo ministrei, ainda assim digo-te que é em um lugar tão frio e distante, talvez despercebido, quem sabe por ti seja conhecido! Só em rememorar sinto calafrio, recordar é hobbie passadio, atente a causa de meu findo vazio...  
          A chuva nos tem castigado e não tem amenizado meus dias de Doutor cansado, nem tem regado a secura dos asilos clamores, só resta à colcha retalhar insônias sem descanso, e como as Fiandeiras da vida eu canso!
         Minhas mãos trêmulas, meu ar fatigado, ombros exaustos, suor em olheiras de sapiência, remelando letras e lagrimáridas descomedidas pelo corpo doído, bengalando pedras-pernas mais que maduras.      
       As aulas recomeçam, as turmas verde-novatas contrastam-se com a sarcófaga ementa, endêmica burocracia, momices de supremacia, garatujas de vocabulário, galhofas de honorário. Assuntos mesmos, por mais que inovem-se as discussões. Não há força no Mestre, jaz o fragor do educar, resta-lhe o silenciar...
       Minha robustez fora do normal roja o giz dos primeiros temas, acarretando em outros e muitos outros fartando a lousa.
         Outro dia de timidez.
         Outra semana de morbidez.
         Outro mês de enfado,
         É a cruel maré do meu fado...
        Novamente o desânimo muletando a fadiga. Minha face calada e metida consigo, contínua introspecção teimosa e obstinada. Como será cruel ver esclerosar meus pensamentos, submissos à derrocada na funda cova que abrigará a parte do meu latifúndio, meu ocular-defunto rosnando cego na tumba macabra da sofreguidão. Oxalá seja apenas superstição!
       Vejo os dias do versado lesmarem na poeira do quadro, no perempto semblante, na rústica janela da caduca Universidade.
       Foi naquela estação tão chuvosa, semana nebulosa, taciturna, sexta-13-noturna. Eles certamente esperavam o catedrático pelo corredor, cismaram por certo com minha ausência de pontualidade. Engrossa a tempestade e devem ter contado as horas em seus desconfortáveis assentos. Aguardavam o famoso, solitário e poético Mestre que nunca faltou.
       Das sombras do corredor percebi o movimento dos lábios cochichosos, enquanto meu vulto sáfaro-morigerado crescia com o compasso dos sapatos, a ansiedade da marcha, meu desejo rendoso pela chegada.
          Entramos.
     Meu ser franzino engordado pelas gotículas da chuva. Meu alívio em vê-los. Minha relutância pela despedida acadêmica. A satisfação sentida por me corresponderem, perdoando-me com o fitar da mocidade cintilante, desconsiderando meu atraso. O encharco lubrificou minha aparência idosasombria, o brilho escondido da prata dos fios, da barba feita, o duelo do tempo enfastiado querendo sucumbir o ocaso de meu quase-último-fôlego.              Fiquei a observá-los, mas algo interromperia nosso pacto institucionalizado.
        Procurei-a, logo deixei correr os olhos em cada parte da sala e a vimos estáticos entrar calmamente com o lenço nos braços. Ela aproximou-se do birô, retirou minha capa molhada, os antigos óculos e iniciou o cerimonial pela face ancestral. Suas mãos participaram secando a boca, os dedos, os cabelos, aquecendo quase que toda extensão e forma fatigada. Apenas fechei os olhos, desfaleci em suas tranças macias a enxugar bem excitada minha espádua, carinhando lábios e pescoço, sussurrando ao ouvido, num transpirar comovido. Meu frisson docente agonizou no orbe daquele ensejo, fez cataclismo em meus olvidados, aziagos e ignotos sentidos, num gozo sidérico causando a subversão da minha federação.
        Nunca mais fui o mesmo, estou a vagar pelo universo do futrico alheio, sendo escanteado para o derradeiro, rumo ao limbo da profissão, moedas ao Caronte da educação, meu mérito por opção. Enquanto os doutos aprontam carcaças caiadas para oprimir, sinto paz ao dormir, coito noites de sorrir... 
         Quisera eu fosse sonho ou devaneio, mas aposentei-me osculando o discente seio.     


           


Simeia  de Castro  
 João Pessoa, 20 de maio de 2011. 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

FELICIDADE ALIENADA


         Estou à procura da felicidade. Não, não é a do filme com Will Smith. É a de Macabéa da narrativa A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. É a felicidade que, segundo o narrador, foi “inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes”, e que eu “inventei” de querer saber. Preciso entender essa felicidade doida para não enlouquecer. Então, vou seguir os passos de Macabéa para ver se “dou de cara” com essa tal felicidade.
        A princípio percebi que a felicidade para Macabéa fazia parte de sua rotina. “Ela pensava que a pessoa era obrigada a ser feliz. Então era”. Simplesmente acreditava-se feliz. Mas, como assim? Ela era feliz só porque pensava que era? Quem ela pensa que é? Eis a questão! Pois “Nunca pensara em ‘eu sou eu’”. Macabéa não existia para si própria. Ela “não tinha consciência de si e não reclamava nada.” Agora tudo começa a fazer sentido. Macabéa não se conhecia. Não se percebia em interação com o mundo que a cercava. Não entendia a relação sujeito-sociedade e, portanto, não tinha consciência de sua função social, de seu lugar no mundo. “Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável.” Ah, se ela tivesse essa consciência duvido que se considerasse feliz! Pois, as preocupações dialéticas, as perspectivas futuras confrontadas com os objetivos do capitalismo selvagem, as dúvidas sobre o destino, faz da vida uma constante angústia. Mas, Macabéa não questionava sobre sua vida, tinha índole passiva, era alienada do mundo ao qual pertencia (o dos humilhados e dos ofendidos). Assim, ela era feliz.
        Um dia ela se olhou no espelho. E, embora o espelho fosse baço e escurecido, enxergou a cara toda deformada. “Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos”. Interrogativos?! É, parece que, finalmente, ela começa a questionar. Mas, o que será que ela estava perguntando? “Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado.” Respondeu a si mesma: “É assim porque é assim.” Parece pouco? Por enquanto basta. Afinal, não é fácil entender o significado da própria existência. O caminho é longo e árduo. O importante é que ela estava dando o primeiro passo.
        Macabéa começou a sentir sua existência quando ela estava terminando. Eu explico. Foi no encontro com a cartomante que ela teve a constatação de que sua vida, até então, tinha sido horrível. Antes, ela “não sabia que era infeliz”. E, através das previsões sobre o seu futuro, pela primeira vez na vida, teve coragem de ter esperança. Nesse instante, sentiu sua existência. Estava “grávida de futuro”. “Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa”. E no primeiro passo que deu para o fazer, ao descer a calçada, o destino a alcançou: o enorme Mercedes amarelo pegou-a. Ao ser atropelada, Macabéa “prestou de repente um pouco de atenção para si mesma” e descobriu a sua essência: “ela era capim”. “Era à-toa na cidade inconquistável”. É no paradoxo que ela se encontra: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.” Ela nasce, isto é, toma consciência de si mesma na hora que estava morrendo.
        A felicidade, que tanto procurei entender nessa história, estava na inconsciência que Macabéa tinha de sua existência, e deixou de existir quando ela tomou consciência de si e de sua condição social. Portanto, foi encontrada uma felicidade alienada.

Eva Gondim

segunda-feira, 16 de maio de 2011

REUNIÃO

Por Késia Mota

De acordo com o HOUAISS, reunião é "ato ou efeito de reunir; nova união; junção; ligamento; aglomeração: reunião de coisas esparsas./ Agrupamento de pessoas no mesmo local; congregação, conglomeração: reunião política. / Aglomerado, conglomerado, conjunto. [...]".

Interessante...

Acho que vou adotar, neste texto, apenas o trecho que diz "Agrupamento de pessoas no mesmo local". Isso certamente é garantido quando alguém resolve convocar uma reunião, seja pelo motivo que for e com o objetivo que se queira. Pelo menos as pessoas convocadas vão se agrupar no mesmo local. Já é um começo, creio.

Se você precisa adiar tomadas de decisões, simples que sejam, basta convocar uma reunião.

Aquelas pessoas agrupadas no mesmo local normalmente chegam a este local com alto teor de indisposição para o consenso. Tenho a impressão de que muitas pessoas, quando convocadas para uma reunião, mudam alguns conceitos, principalmente o significado de "deliberação". Este é automaticamente transformado em "briga". "Acordo" transforma-se em "discórdia" Já percebeu que algumas pessoas brigam por discordar enquanto defendem o mesmo ponto de vista? Algo como:

"Creio que deveríamos alterar as coisas!"
"Como assim, você está louco? As coisas não podem continuar como estão!"

Reunião é o seguinte: horas e horas perdidas com informes que você poderia ter lido por e-mail. Mais horas e horas de desgaste com discussões desnecessárias. E, no final, poucos minutos dedicados ao assunto que realmente importa, mas não será discutido, pois todos já estarão com fome, calor e cansaço demais. Fica pra próxima.

Os sábios, por serem sábios, ficam calados. Poderiam solucionar muitos problemas fazendo uso da sua sabedoria, mas o prudente é calar.

Ah, reuniões! Benditas reuniões!

Eu teria mais a falar, mas vou deixar para a próxima. Vamos terminar por aqui, estamos cansados. Depois elaboramos nova pauta, marcamos data, hora e local, onde várias pessoas serão agrupadas, e continuaremos a tratar deste assunto, já que estamos falando de reunião...

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NOTA DA AUTORA: Que fique claro que esta crônica não é inspirada nas reuniões da monitoria. Estas reuniões são muito práticas, objetivas e todos os assuntos são tratados adequadamente. Além do mais, não são reuniões deliberativas, para tomada de decisões. A paz reina! E todos saem sorridentes e satisfeitos.

A voz das heroínas nas Heróides, de Ovídio

Por Danniele Silva


“Aquilo que não ousei dizer, o Amor
me ordenou escrever, e às ordens que
o Amor dá é perigoso desobedecer”
[Heróide IV]
  
Ovídio, autor romano, foi um dos poucos escritores que ao falar de amor, soube colocar no texto a sensação dúbia desse sentimento: o furor da paixão ardente e a dor de não estar perto do ser amado. Em ‘A Heróides’¹, Ovídio, através de cartas, dá voz a Heroínas greco-romanas que, de alguma maneira, estão longe de quem amam. Ao todo são 21 epístolas, sendo 15 escritas por mulheres e 6 por seus respectivos amantes (ou seja, nem todas foram respondidas). Uma das particularidades desses relatos é que eles nos dão a oportunidade de imaginar a perspectiva das mulheres.

Ao lermos as cartas, nos deparamos com uma Penélope apaixonada e suplicante pela presença de Ulisses (“Tua Penélope envia-te esta carta, muito tarde, Ulisses: não responda, vem!”)², com Fedra a declarar-se apaixonada e torturada, pelo seu sentimento, para Hipólito (“Eu queimo interiormente, eu queimo, e uma ferida faz meu coração sangrar”)³, com Hermíone, prisioneira de Neoptólemo, a pedir a ajuda de Orestes (“Não precisas nem milhares de navios, nem tuas velas flutuantes, nem tropas gregas; vem sozinho!”)4 e (entre outras) com Dido, que em sua epístola (a Heroide VII) apresenta-se decidida a morrer como o cisne que entoa seu último canto. Encontra-se apaixonada e colérica ao mesmo tempo, sem entender as razões que fizeram com que Eneias a deixasse (“E, no entanto, não odeio Eneias, apesar de as intenções dele não serem idóneas, mas queixo-me da sua falta de boa fé e, depois de me ter queixado, ainda o amo mais.”). Além destas, ainda é possível nos deliciarmos com as cartas de Ariadne a Teseu, de Medéia a Jasão, de Páris a Helena e de Helena a Páris (ele enviou primeiro).

Esse texto é como um convite, um convite para conhecer um autor magnífico e para ‘ouvir’ a voz dessas heroínas, para se deleitar nas sensações descritas e talvez (porque não?) se achar nas angústias e nos amores delas.

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¹ Epistulae Heroidum (Epístulas das Heroínas)
² Heroide I
³ Heroide II
4 Trecho da Heroide VIII. Nessa fala, Hermione faz alusão aos pais dela e de Orestes, Menelau e Agamémnon, respectivamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Relação Fala x Escrita

Por Luiza Helena Costa

Não se pode mais examinar a oralidade e a escrita como opostas, mas, sim, considerar ambas como atividades interativas e complementares. A escrita, como se postulou por vezes, não é apenas mera representação da fala, já que cada qual possui sua especificidade. Se assim fosse, não haveria o problema que ocorre em algumas crianças, que falam perfeitamente, embora transcrevam o mesmo texto de maneira errônea. Para constatar o proposto, basta perceber que a fala está no campo do oral, do material sonoro, já a escrita é gráfico-visual, ou seja, o domínio de cada um possui um funcionamento próprio. A escrita pode ser entendida como uma criação humana para suprir necessidades que a fala não abarcava mais. Não há necessidade de duas linguagens para a mesma função, pois uma seria a duplicação da outra. Historicamente, muitos povos tiveram tradição oral, mas poucos tiveram tradição escrita. Isso não significa que a oralidade é mais importante, apenas cronologicamente, apareceu primeiro.

Levando-se em conta a maneira prática, em uma conversa, indivíduos podem se expressar de forma “desorganizada”, já na escrita não deve haver redundâncias nem vícios próprios da linguagem falada. Segundo Koch, o que distingue o texto escrito do texto falado é a forma como tal coprodução se realiza. Graças à presença dos interlocutores no momento da interação, a fala é imediata e pouco densa, contrariamente, na escrita os contextos de produção não coincidem, e há um distanciamento temporal e espacial entre os interlocutores.

Na visão de Marcuschi, analisando-se o assunto de uma forma dicotômica, pode-se caracterizar a fala como sendo redundante, não planejada, fragmentada e pouco elaborada; se diferenciando, a escrita é planejada, explícita, descontextualizada e possui densidade informacional. Essas exemplificadas são distinções que nem sempre podem ser levadas em conta, pois há também a modalidade informal da escrita, que se aproxima da fala, e ainda a fala formal, que se aproxima da escrita. Podemos ter como exemplo de escrita informal os bilhetes domésticos, as cartas familiares e textos de humor. Por isso há variações em dependência com as condições nas quais foram produzidos os textos. Determinados discursos de posse de cargo, as conferências, e as entrevistas especializadas são modalidades da oralidade formal. Deve-se levar em conta da mesma forma, quanto ao não planejamento da fala, que apesar de não haver a preparação prévia que se tem na escrita, ela passa por seus próprios planejamentos a cada momento da interação, em tempo real.

A fala se constitui como a modalidade primeira de uso da língua. Em cada grupo social, as pessoas fazem a utilização de uma forma personalizada e específica desse universo em que estão inseridas. Sendo esse aspecto característico da fala, está essa em um sentido mais amplo da língua, de tal forma que torna o falante entendido pelos membros de sua comunidade lingüística. Antigamente, a escrita era de privilégio de poucos, geralmente quem tinha acesso a ela eram burgueses e membros do clero. Hoje a situação que se configura é complemente divergente, nas sociedades tecnológicas atuais a escrita eleva seus usuários ao status de letrados, competentes.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um lugar da memória

Por Aíla Muniz


Percorrer essas ruas depois de tanto tempo não é a coisa mais fácil de fazer. O sofrimento que vivi por aqui, abafado pelos anos e novas habitações, acostumou-se a passar batido por mim. Poucas vezes calhava de se impregnar numa parede descascada que expunha a cor de tinta da época. Já era natural me esquivar de certos roteiros e bifurcações que terminassem na praça que ainda fico constrangido de chamar maldita. Talvez seja a igreja imponente ao centro que me faça querer encontrar otimismo na dor que senti sobre esses paralelepípedos. Talvez haja algo de bom, afinal. O fato é que voltar ali, por conta própria, por resolução de ano novo, nunca prometeu indiferença. Muitos podem julgar, e julgam, que o fato de eu não ter me debulhado em lágrimas em plena luz do dia, ali ao centro, como muitos fizeram, faz do meu choro algo menor. Só agora percebo que chorar baixo à noite, sentado num banco qualquer, tinha razão de ser. Voltar para casa batendo as mãos pelas grades do caminho, como uma criança – que era - fingindo que nada estava acontecendo era o mais natural que conseguiriam de mim. 

Hoje volto como o jovem adulto que se permite chorar a dor que decidiram não ser merecida, mas é. Volto amparado e sem rótulo. Fico feliz de caminhar acompanhado, contando o que cada pedaço daquele lugar me traz, sabendo que não sou vítima nem vilão para meu acompanhante. Feliz por poder entristecer numa boa vez por outra e ter alguém pra contar nessas horas. 

À segunda vista, o lugar parece outro: casas, lojas, padarias, igreja, calçamento. Mas é tudo igual, eu que cheguei diferente. E a partir dessa mudança, posso tornar acessíveis aquelas rotas. Assumindo o risco de vez ou outra ter de encostar o carro e chorar indefinidamente por ter encontrado o mínimo detalhe, o guarda de trânsito que me atravessava em frente à escola. Só assim posso me permitir transitar por um bairro que faz parte da cidade onde moro, sem cortar caminho. Porque às vezes o que eu quero só encontro lá.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Elementos químicos

Ao filho do carbono e do amoníaco

“Nem tudo o que está no ambiente ao nosso redor é percebido por nossos sentidos”, já dizia o pútrido manual deixado por teu bioquímico ancestral...

Mas, meu ar nefasto de micro partículas te capta a olho nu. Também, teu telúrico gosto é apreciado por meu maligno paladar, meu olfato se movimenta como cascavel peçonhenta e meu veneno esquenta o tato que te acalenta.

“Mas o ar possui massa”...

Mas à massa foi dado o nome de matéria, porque tal conceito elementar não procuras observar? Estude-me ingrato, entre em meu laboratório, faça dele seu refeitório, desnude-se do jaleco grotesco e brindemos o vinho picaresco.

Gênio pesquisador considere que somos porções limitadas, somos corpos de opróbrio pairando entre papaverina, morfina e narcotina... Passamos por transformações e não me acostumo com rejeições.

Mas, minha energia não se aguenta quer ser parte atuante do processo, não se resume à mísera matéria, atenta está em tua massa, conhece bem tua Raça! Não a ignore, ela é facilmente por ti percebida. Seja submisso, não se faças omisso, pois precisas dela para existir, não tens como fugir!

Minha química arrasa tua mecânica,
Minha roda trepa em tua dinâmica,
Meu eixo frui em teu cabresto...

Meu veículo de últimas reservas danou-se veloz em tua selva, tragando a daninha erva, mordendo as calorias, maquinando as boas orgias...

Desequilibramos a equação, queremos produzir a Luminosa, carregar bioluminiscência nos mazombos bosques da indecência...

Ai da Cinética, faremos intenso movimento... Por entre dores e lamentos parimos um calor gerado por freios descontrolados... Mui bem histérica quero ver tua térmica fazer muita pressão num orbe de excitação...

Até a ínfima molécula desquita-se da substância pura, quer ver nossa travessura namorar o Hidrogênio, noivar o Oxigênio, casar o vil Carbono.

Quero o gozo periódico, transgredir tua tabela...
Ser Ode de destruição dos elementos de transição...
Sou o esterco do ébrio que morreu de tanto tédio...

Sou a Hedionda da contravenção!

Quero a demolição do lídio, que morra teu primo Berílio... Enquanto calcula o Sódio, faço sexo com o Ódio...

Encho-me de potássio pra domar teu magnésio...
Enlouqueço Césio, Frâncio e Rubídio...
Coito Ítrio, Titânio e Ovídio...
Sou a Medéia do dístico elegíaco, possuída por Tântalo e Mércúrio...
Gerei Lantânio, Netúnio e Urânio,
Enquanto comia Érbio, Túlio, Itérbio, Lutécio, Nobélio e Férmio...

Venho de outras Eras, do organismo das moneras, já fui Ouro, Prata e Bronze até render-me ao teu domínio, não passo de vômito do alumínio...

Sou Ferro perecível do Caos cruel e terrível.




Simeia de Castro
João Pessoa, 28 de abril de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Aula de Matemática

Por Siméia de Castro



... Eu estou de bem com um grande mal... Num insano viver de descompassos, desde o dia em que teus passos cruzaram efervescentes e a porta rapidamente aguçou minhas fantasias... 

Tu não me ensinas nada Professor, és o senhor do meu desinteresse. Mesmo que hoje eu não quisesse tuas aulas, minha chama juvenil arrebata teu quadril, meus compassos em teus esquadros, seus embaraços entre meus laços. Sou a Imperatriz de tua agonizante matriz, corra da minha raiz, ande na contramão, componha-me uma canção, pegue a minha cartilha que está em tua mobilha, faça-me de equação, reze minha oração, esqueça os velhos terços, se envolva em meus adereços! Seja meu elo transversal, ângulo lateral, vértice histérico de meu mundo cibernético, número dionisíaco de aroma afrodisíaco, o laibirinto atuante de meu passeio agonizante... Cuidado, não se enrosque, há um lobo mal no bosque... 

Sou teu Elmo incandescente, das delícias sou o presente. Gire na providência, rompa a circunferência, brinquemos de potência nos vales da indecência... 
 
Teu olhar matemático transpira enigmático, seus sentimentos sobre meus conhecimentos. Contigo estou sempre reprovada, nunca evoluo, recuo, regresso, não presto... 

Catetos,  
conceitos,  
constantes,  
amantes,  
hipotenusas,  
blusas,  
pertences,  
docentes,  
ardentes... 


Temperatura arterial, gozo fenomenal, ato transcendente, tua discente, conjunto binário, corpos unitário... 

Exploras todo o quadro enquanto ignoras minha geometria, sondo tua obscura extasia, tua tensão precoce, teu nervosismo, minha triangulação causa-te excitação. Explica agonizado, agonizante, meu amante, teu ângulo paralelo luta comigo em duelo.  

Suas constantes correm radiantes pelo solo escolar, queres ensinar, ser o exemplar, replicar, falar, mas eu tão distante desaponto tuas teorias, vãs filosofias, meus instintos te porfia, fujo, penso porcarias, enquanto tão dedicado estais, suspiro de tantos ais...  

Preenches a lousa e eu fito as roupas, os dentes contentes, o pescoço tenso e rosado pelo calor, teu corpo pede frescor por tanto empenho e agitação, pura afobação!  

No birô ligas o monitor, arrasta a cadeira, inquieta a prateleira, sou a confusão de tua distração... 

Menino Mestre, Infante criança, tuas exigências não te levam a lugar nenhum, sempre te questionamos, surramos e amamos. Teu currículo acadêmico late enquanto ardes, encobre teu costume boêmio, não venha com bestiais equações, pois quero notas e canções, o badalo da lira para aplacar tua ira, anarquias em teu terno militar plantam flores em teu pomar, espinhos pra te torturar, ataduras pra cicatrizar.  

Ninguém quer entender, as horas querem correr, desesperadas querem findar este teu eterno falar, esse martírio de profunda sapiência é uma indecência ao meu malandro ouvido, quero apenas ver-te despido... 

Falei meu bem, direi o mal, praguejarei, mas te ouvirei apenas por te desejar, pela possibilidade do prazer de tua docente ser. Eu sim te ensinarei, ministrarei o B – A – BÁ, a conjugar o verbo amar, aplicarei minha ementa, enquanto meu corpo te tenta, usarei letra bastão, te rogo um travessão! Escreverei bem ativa em tuas curvas cursivas... 

Tua matriz será minha atriz, tua equação em poder de minhas mãos. Pobre da trigonometria, farei dela nossa euforia... Uma volta completa quero dar em tua circunferência, mil beijos de indecência, ser o compasso dos nossos amassos, a potência e o somar das noites do teu delirar...  

...Não irás descansar! 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Écloga, Epodo e Metamorfose: comparações sintático-semânticas entre Virgílio, Horácio e Ovídio

 Por Késia Viviane da Mota
Orientador: Prof. Dr. Juvino Alves Maia Junior

RESUMO: Este artigo é resultado dos estudos relacionados à disciplina Língua Latina II, no período letivo de 2010.1. O seu objetivo é apresentar informações sobre a lírica dos autores clássicos latinos a partir de uma comparação entre as suas obras. O corpus selecionado para a análise é constituído de três poemas: a Écloga (ou Bucólica) IV, de Virgílio, o Epodon XVI, de Horácio, e os versos 89 a 150 do Livro I das Metamorfoses, de Ovídio, todos estudados sob a orientação do Prof. Dr. Juvino Alves Maia Junior. A tradução instrumental de cada texto foi realizada, mas não apresentada na íntegra. Eventualmente, apenas os seguintes fragmentos, necessários para a compreensão dos comentários, foram citados: versos 34 a 36 da Écloga IV de Virgílio; versos 57 a 60 do Epodo XVI de Horácio; e versos 132 a 134 do livro I das Metamorfoses de Ovídio. Algumas semelhanças e diferenças entre os três autores são o objeto da análise. A intensão é apresentar uma noção da riqueza estilística dos textos tomados como corpus para motivar o leitor ao conhecimento destas e de outras obras da literatura clássica, como também ao aprendizado da língua latina, no propósito de adquirir habilidade para o contato direto com os originais.
PALAVRAS-CHAVE: latim, lírica, Virgílio, Horácio, Ovídio.

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Este é o resumo do trabalho publicado pela monitora no IX CCHLA: Conhecimento em Debate (Humanidades hoje), em outubro de 2010. Para ler o artigo completo, clique aqui.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

RESULTADO MONITORIA 2011.1

Na quarta-feira, dia 06/04/11, o resultado da seleção para a monitoria 2011.1 será divulgado.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Disciplinas que aceitam monitoria em 2011.1

Pessoal, a lista de disciplinas pode ser vista no endereço

http://www.cchla.ufpb.br/~leonor/pdfs/20111Lista_disciplinas.pdf

A ficha de inscrição está na copiadora do C.A. de Psicologia (xerox do Wagner).

Os documentos para anexar são:

- cópia do histórico escolar (pode ser a do AutoServiço)
- copia de RG, CPF e comprovante bancário.

A prova é AMANHÃ, quinta, dia 31.03, às 10 ou às 19h.

Abraços,
Leonor

MONITORIA URGENTE

Recado URGENTE!!!

A Monitoria DLCV recebeu o direito a 18 bolsas e 9 vagas para voluntários de monitoria.

Vá correndo ao DLCV e veja todas as informações. Corra que as inscrições serão apenas até AMANHÃ.

As provas serão AMANHÃ, também. De manhã, às 10h. À noite, às 19h. Ainda não se sabe em que sala será. Vá ao DLCV alguns minutos antes para obter essa informação.

Boa sorte!