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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Relação Fala x Escrita

Por Luiza Helena Costa

Não se pode mais examinar a oralidade e a escrita como opostas, mas, sim, considerar ambas como atividades interativas e complementares. A escrita, como se postulou por vezes, não é apenas mera representação da fala, já que cada qual possui sua especificidade. Se assim fosse, não haveria o problema que ocorre em algumas crianças, que falam perfeitamente, embora transcrevam o mesmo texto de maneira errônea. Para constatar o proposto, basta perceber que a fala está no campo do oral, do material sonoro, já a escrita é gráfico-visual, ou seja, o domínio de cada um possui um funcionamento próprio. A escrita pode ser entendida como uma criação humana para suprir necessidades que a fala não abarcava mais. Não há necessidade de duas linguagens para a mesma função, pois uma seria a duplicação da outra. Historicamente, muitos povos tiveram tradição oral, mas poucos tiveram tradição escrita. Isso não significa que a oralidade é mais importante, apenas cronologicamente, apareceu primeiro.

Levando-se em conta a maneira prática, em uma conversa, indivíduos podem se expressar de forma “desorganizada”, já na escrita não deve haver redundâncias nem vícios próprios da linguagem falada. Segundo Koch, o que distingue o texto escrito do texto falado é a forma como tal coprodução se realiza. Graças à presença dos interlocutores no momento da interação, a fala é imediata e pouco densa, contrariamente, na escrita os contextos de produção não coincidem, e há um distanciamento temporal e espacial entre os interlocutores.

Na visão de Marcuschi, analisando-se o assunto de uma forma dicotômica, pode-se caracterizar a fala como sendo redundante, não planejada, fragmentada e pouco elaborada; se diferenciando, a escrita é planejada, explícita, descontextualizada e possui densidade informacional. Essas exemplificadas são distinções que nem sempre podem ser levadas em conta, pois há também a modalidade informal da escrita, que se aproxima da fala, e ainda a fala formal, que se aproxima da escrita. Podemos ter como exemplo de escrita informal os bilhetes domésticos, as cartas familiares e textos de humor. Por isso há variações em dependência com as condições nas quais foram produzidos os textos. Determinados discursos de posse de cargo, as conferências, e as entrevistas especializadas são modalidades da oralidade formal. Deve-se levar em conta da mesma forma, quanto ao não planejamento da fala, que apesar de não haver a preparação prévia que se tem na escrita, ela passa por seus próprios planejamentos a cada momento da interação, em tempo real.

A fala se constitui como a modalidade primeira de uso da língua. Em cada grupo social, as pessoas fazem a utilização de uma forma personalizada e específica desse universo em que estão inseridas. Sendo esse aspecto característico da fala, está essa em um sentido mais amplo da língua, de tal forma que torna o falante entendido pelos membros de sua comunidade lingüística. Antigamente, a escrita era de privilégio de poucos, geralmente quem tinha acesso a ela eram burgueses e membros do clero. Hoje a situação que se configura é complemente divergente, nas sociedades tecnológicas atuais a escrita eleva seus usuários ao status de letrados, competentes.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

O CONTO BRASILEIRO DO SÉC. XXI

 Verônica Barbosa

O ensaio “O conto brasileiro do século XXI”, de Rinaldo de Fernandes, que resultou de sua experiência de professor de Literatura Brasileira, de crítico no jornal Rascunho, de Curitiba, e sobretudo de sua atividade de antologista, tem como objetivo principal comentar 28 contos e ainda distribuí-los em cinco vertentes. O ensaísta nos leva a crer que essas vertentes são fundamentais na classificação do conto brasileiro do século XXI.

Para Rinaldo de Fernandes (2010, p. 02), “há uma grande diversidade de formas no conto, que parte do minimalismo ao realismo brutal, passando pela vertente intimista, pela narrativa fragmentária ou mesmo experimental”. Portanto, o conto contemporâneo tem a função de narrar fatos típicos do homem atual, como podemos citar a violência, o infortúnio e a pobreza brasileira.

No ensaio, Rinaldo de Fernandes afirma que o conto é um gênero bastante significativo na literatura, em seguida ressalta as cinco vertentes que norteiam o conto brasileiro do século XXI:

1° - a da violência ou brutalidade no espaço público e urbano;
2º - a das relações privadas, na família ou no trabalho, em que aparecem indivíduos com valores degradados, com perversões e não raro em situações também de extrema violência, física       ou psicológica;
3º - a das narrativas fantásticas, na melhor tradição do realismo fantástico hispano-americano, às quais se podem juntar as de ficção científica e as de teor místico/macabro;
4º - a dos relatos rurais, ainda em diálogo com a tradição regionalista;
5º - a das obras metaficcionais ou de inspiração pós-moderna (FERNANDES, 2010, p. 03).

 De acordo com o ensaísta, o que une todas essas vertentes são a crueldade e a ironia que os melhores contistas da atualidade herdaram do Machado de Assis. Entretanto, é importante salientar que num único conto ou num mesmo livro o autor pode utilizar mais de uma vertente.

Após isso, Rinaldo de Fernandes aborda de forma detalhada as cinco vertentes e ainda comenta vários contos indicando seus respectivos autores. E  ressalta que “o conto contemporâneo [...] não se fixa apenas no espaço público – volta-se, de forma aguda, para relações privadas, na família ou no trabalho. Relações em que por vezes aparecem protagonistas pervertidos ou mesmo violentos” (FERNANDES, 2010, p. 06).

Por último, é importante salientar que Rinaldo de Fernandes, ao tratar das cinco vertentes do conto brasileiro do século XXI, teve a intenção principalmente de apresentar os contos mais significativos e não de selecionar os melhores contistas, o que seria uma tarefa muito difícil e precipitada em relação às produções recentes.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Missa do Galo: Um outro enfoque (Moacyr Scliar)

Sob a narrativa da personagem Conceição, este conto, como o próprio nome sugeri é outro enfoque do conto Missa do galo de Machado de Assis. O conto de Moacyr Scliar é construído sobre as bases dos mesmos personagens e situações do conto de Machado de Assis, diferenciado pela visão e exposição das idéias, acontecimentos e emoções da personagem Conceição (trinta anos). Durante todo o conto ela expressa suas atitudes e sentimentos que envolveram um diálogo que tivera com o jovem Nogueira (dezessete anos), que estava hospedado em sua casa, tendo em vista que o marido de Conceição, Meneses, fora casado com uma das primas do jovem.
Era noite de natal e Conceição expõe que naquela mesma noite acontecera algo que mudara sua vida. Bela, sedutora, inteligente e ao mesmo tempo, delicada e envolvente, Conceição inicia uma conversa com Nogueira, este resolveu não dormir, pois esperava pela missa do galo à meia-noite, tendo já combinado com o vizinho de ir acordá-lo quando a hora fosse chegada. A conversação entre os dois é rodeada de seduções, emoções e sentimentos inesperados de ambas as partes.
O jovem fora embora no ano novo para a cidade de Mangaratiba. A figura dele se interpõe na mente de Conceição a cada ano, sua ausência a faz por vezes, “derramar algumas sentidas lágrimas”.

Manuelly de Carvalho Silva

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Resenha do aritgo "Alforria Curricular através da Lei 10.639".

Neste artigo, os autores iniciam o texto mostrando a importância da Lei que apregoa a inclusão da Cultura e História afro-brasileira no curriculum escolar. Algumas pessoas questionam o porquê de essa cultura receber um destaque maior. Estaríamos, assim, segregando esse grupo? Criando exceções? Para Joel de Araujo e Patrycia Cardoso, com esse feito estaremos valorizando a nossa cultura, conhecendo nossa verdadeira história, diferentemente da época da colonização brasileira, na qual os jesuítas realizaram um tipo de educação “de cima pra baixo”; nela apenas as elites eram privilegiadas, ignorando os negros e índios, que eram tidos como hereges, sem almas. Não se trata, também, de revanchismo. A causa afro se apoia na sua contextualização, pois os imigrantes europeus que vieram ao Brasil não foram forçados a fazê-lo, alguns tiveram ainda apoio financeiro. Já os negros chegaram aqui açoitados, como mercadoria e, após a abolição da escravatura, desprovidos de meios de produção, permaneceram prisioneiros dos grandes proprietários: os patrões.

É importante ressaltar que essa questão não pretende abordar a temática dos grupos excluídos, pois se este fosse o objetivo, teríamos uma lista extensa de grupos a serem inseridos na ocasião: índios, homossexuais, judeus, árabes, etc. Trata-se de uma motivação histórica e sócio-cultural.

A Lei 10.639 de 09 de Janeiro de 2003, sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva alterou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). A partir de então, tornou-se obrigatório a inclusão, no currículo das escolas de ensino fundamental e médio (públicas e privadas), o estudo da História e Cultura Afro-brasileira. Busca-se com isso, resgatar a contribuição da raça negra nas áreas social, econômica, política e cultural no cenário brasileiro. A lei propõe ainda, que os calendários escolares incluam o dia 20 de Novembro como Dia Nacional da Consciência Negra.

A iniciativa de inserção da lei é celebrada pelos autores, pois eles afirmam que a escola seria o melhor lugar para que, a partir dos primeiros anos de vida, o aluno possa entrar em contato com essa realidade que fora anteriormente deturpada, dissociada da sua importância na formação da sociedade brasileira.

Em recente estudo sobre as condições de vida de brancos e afro-descendentes nos setores ocupacionais e educacionais em bairros da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, BRANDÃO (2003) aponta gritantes disparidades entre negros e brancos. Em uma mesma região onda há a miscigenação entre essas raças, os negros sempre dispõem das piores condições de estudo e trabalho. Esta pesquisa mostra a impossibilidade de relacionarmos apenas a questões de classe social a problemática do racismo no Brasil, pois as desigualdades se tornam maiores, mesmo com uma série de políticas universais voltadas para as classes pobres.

Nesse sentido a lei já passa a se sustentar como um todo. Mostrará, na prática, sua importância para as novas gerações quando, dentro de alguns anos, tiver criado nos alunos condições para reflexões. Não é o caso de criar histórias; propõe-se uma abordagem afetiva e cognitiva, na qual os alunos poderão preencher uma lacuna criada - e ignorada - pelas elites brasileiras.

Para recompormos esse vácuo existente na sociedade não bastam políticas paliativas. Tais políticas possuem um papel importante nesse aspecto, porém é preciso reconhecer o negro como ser integrante de um processo, é preciso dar-lhes oportunidades concretas, dignas, para que eles sintam, de fato, a realização dessa inclusão social há tanto tempo pregada, mas nunca efetivada de forma consistente. Somente através da construção do conhecimento, de suas raízes, seu histórico e sua contribuição na construção da nação brasileira, poderão os afros, enfim, construírem um sentimento de auto-estima. Ao contrário, estarão sempre na condição de reféns.

Não pretendemos que os professores ensinem que o racismo é errado, que não devemos ser racistas. Evocamos, aqui, o poder da educação para que, através de discussões voltadas à valorização e esclarecimento, não somente do patrimônio (histórico-cultural, arquitetônico, ambiental, etc.), mais ainda, sobre a importância do significado que a cidadania coletiva pode ter na busca na valorização do homem, os alunos possam formar uma consciência esclarecida, dissociada de preconceitos impostos por valores deturpados.

Não existe caminho mais sólido que a educação. Assim, para que haja uma redução nas disparidades existentes, devemos preparar nossos professores e disponibilizar material didático. É um projeto de curto e médio prazo, mas se trabalharmos, dentro de quatro anos poderemos ter uma primeira geração de educadores aptos a incorporarem no cotidiano escola a cultura afro.

Como medida emergencial cada escola deve incluir em seus projetos pedagógicos uma discussão acerca da cultura afro. Como foi sugerido, esses conteúdos poderão fazer parte dos programas e estratégias desenvolvidos em cada unidade escolar. A própria miscigenação racial existente nos estabelecimentos de ensino já proporcionam um reconhecimento da heterogeneidade brasileira. Então, não devemos temer a falta de preparação dos profissionais para abordarem tais conteúdos, uma vez que estes estão presentes no cotidiano brasileiro. É papel do Governo acionar as universidades, exigindo a inclusão de módulos ou disciplinas específicas sobre o tema. Sem dúvida, os profissionais que já trabalham com esses conteúdos, além de desejosos em divulgar seus trabalhos, terão plenas condições de formarem seus alunos para a construção de uma prática igualitária, justa e cidadã, através da educação.


Nathália Pinto do Rêgo

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Resenha do livro: A Formação do Professor de Português: que língua vamos ensinar?

O livro A formação do professor de português, de Paulo Coimbra Guedes (2006) é um trabalho que reflete a formação do professor de língua portuguesa e como essa formação tem concebido o aprendizado de língua-padrão, no que se refere aos usuários da língua na sociedade brasileira desde o período colonial à contemporaneidade. O objetivo do autor nesta obra é fornecer um módulo norteador, para que o professor de português possa construir uma nova identidade, uma vez que as práticas do ensino estão obsoletas, e por isso, descaracterizam o verdadeiro papel do professor.
O exercício da língua portuguesa é uma tarefa a ser realizada de modo que se torne um trabalho de construção de uma identidade cultural, como instrumento de apropriação da realidade social e cultural pelos brasileiros. Para que isso possa acontecer a qualificação do professor deve revelar-se capaz de ter domínio da língua em que a literatura brasileira se escreve. Sendo assim, em vez de tentar levar o aluno a uma adesão de uma língua a ser escrita e falada em todos os momentos, a escola precisa propiciar-lhe domínio da língua escrita e falada para as mais diferentes situações de uso – tanto através da leitura, como da produção de textos, para que ele possa incorporar a construção de sua identidade cultural.
Entretanto, há uma crise de identidade do professor de português assim como o exercício do seu ministério, que estão ligados diretamente a um fato histórico desencadeado pelo reducionismo a que se chegou a sua profissão, ou seja, foi tirado do professor a responsabilidade de produzir ciência, tornando-o apenas um mero transmissor de conhecimento – e o que é pior, tornando-se um ‘capataz de livro didático’. A ditadura militar, a qual o Brasil passou de 1964 a 1984, desqualificou em tais proporções a categoria do professor e o fez baixar a cabeça às regras ditadas pelo livro didático.
Nas assessorias pedagógicas costuma-se perceber alguns equívocos grotescos, pois se fala muito em realizar formações continuadas para dar subsídios aos professores que já estão atuando na área, e, através desses encontros são descobertos que há uma massa de professores resistentes à abertura para o “novo”, pois, para a concretização deste é preciso tempo e disposição para pensar em algo precioso e trabalhado para a aula de português. Por isso, a maioria dos professores que freqüentam os encontros de formação, dizem já ter adotado uma prática reflexiva dos conteúdos, quando na verdade, a prática do ensino está camuflada por outra prática.
Com efeito, é possível construir uma nova identidade para o professor de português, desde que, ele próprio possa valorizar sua categoria, tornando, sobretudo, um investigador de sua própria prática docente e se possível modificador de sua prática, isto é, o professor deve constituir-se como um sujeito reflexivo como reflete Libâneo (1994).
A maioria das pessoas acham que a habilidade de escrever nasce de acordo com a genética do sujeito, mas, na verdade, é um processo que parte do ato de treinar constantemente a escrita e leitura. É partir daí, que podemos inferir que o sujeito se constrói culturalmente.
A aquisição da língua portuguesa como uma cultura na sala de aula não está para um aprendizado e domínio daquilo que o falante de português brasileiro desde pequeno já sabe, mas sim, como fator inibidor e repressivo escolar, caracterizado pela imposição da norma culta.
O homem como sujeito de transformação só entenderá como se dá a construção histórica da realidade social se entender que a literatura brasileira deve ser o ponto de partida do ensinar “a ler e escrever”, por ser a esta um projeto de resistência ao colonialismo. Através da literatura descobrimos a essência da nossa língua. Sendo assim, a tarefa do professor de português é desprivatizar a língua escrita ensinando seus alunos a ler e escrever para que passem a ser co-participantes da produção de conhecimento a respeito do Brasil. O professor tem que mostrar ao aluno que ele já sabe português, mas que, precisa aprender uma variante lingüística para determinadas ocasiões de fala e de escrita. Ninguém nasce sabendo ler e escrever, aprende-se a ler e escrever! Com efeito, para que isso aconteça, é imprescindível que o próprio professor seja também um leitor. A leitura com profundidade, reflexiva, constrói sentidos significativos para a formação de um agente social.
Paulo Coimbra Guedes considera que a aula de português de chegou a um nível de decadência muito alto. Pois, as aulas de português de tanto se resumirem ao ensino das regras da gramática normativa na escola desde as primeiras séries do ensino tem se colocado como senhora da língua. No ensino fundamental, por exemplo, a literatura fica esquecida e no ensino médio apenas uma fatia das obras literárias é estudada. Algumas dessas obras são estudadas de acordo com a biografia e/ou a escola literária da qual o autor pertença. Por essa razão, o aluno de letras ao chegar na academia, não trás consigo uma bagagem de leitura literária e, por isso, surgem problemas na formação acadêmica em decorrência das leituras que faltaram ser dadas nessa fase escolar.
Os problemas apontados pelo autor já são em grande parte conhecidos tanto por parte de cientistas da linguagem, professores e alunos que ainda estão na graduação em Letras, sobretudo, no que tange a dicotomia escrita x fala. A proposta de se trabalhar a aula de português partindo da Literatura Brasileira trazida pelo autor é, em si, interessante – posto que, já ficou provado que a gramática normativa com suas regras, não garante uma aquisição satisfatória de uso da escrita e da fala nos mais variados contextos interacionais.
Contudo, ao colocar a literatura como ponto de partida para o ensino na aula de português, o autor parece se esquecer que o aprendizado não se dará somente naquele momento de aula do professor para com os alunos na sala. Seria preciso que o próprio aluno adquirisse obras de boa qualidade em suas mãos, entretanto, não ocorre, pois adquirir livros de boa qualidade custa caro no Brasil, porque como diz o próprio Paulo Guedes: “À elite não interessam bons resultados porque não interessam profissionais competentes. Incompetentes adesivistas são mais manipuláveis e incompetentes são menos perigosos”.
Portanto, para que a proposta do autor pudesse mesmo valer seria preciso realmente colocar a educação no lugar de destaque. Claro que devemos reconhecer os avanços na educação iniciados a partir de 2002, mas não é suficiente para dizermos que no Brasil a educação é de boa qualidade.

Por: Jailton Santos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Depois de ouvir alguns alunos relatarem dificuldades na hora de elaborar um texto acadêmico, resolvi indicar aqui um livro para aqueles que encontram-se ou acham que estão um pouco perdidos.

O livro Resenha das autoras Anna Rachel Machado, Eliane Lousada e Lília S. Abreu-Tardelli faz parte de uma coleção que orienta à produção de textos técnicos e acadêmicos. Esse livro não é indicado apenas para um curso específico, mas, para todos aqueles que não fazem nem ideia de por onde começar a produzir um texto e também para os que sabem, afinal, conhecimento nunca é demais.
O livro Resenha trata em cada capítulo de característica específicas desse gênero que juntamente com os exercícios propostos no final de cada de cada exposição, faz com que o leitor aprenda a prática praticando. O leitor é levado a refletir na hora em que está resolvendo as questões das atividades e no momento desse processo, o leitor/praticante vai adquirindo um jeito próprio de elaborar seus textos. Os capítulos abordam os tópicos de resenha em situações distintas, as diferentes formas de mencionar trechos do texto que será resenhado, a subjetividade que deve aparecer no texto, mecanismos conectores, entre outros elementos característicos do gênero resenha.
Deixo claro aqui que o livro não traz formas prontas, pois não existe uma receita de como fazer um bom texto, uma boa resenha. Acredito que é através das práticas e de conhecimentos de fontes distintas que podemos chegar a um bom resultado, por isso, não sonhe com um livro que traga passo a passo da forma estrutural, pois não é só de estrutura que se faz um bom texto, mas através de vários elementos que advém dos conhecimentos de cada leitor. O livro Resenha apenas dá um direcionamento para que o leitor organize suas ideias adequando-as ao gênero proposto. Além disso, o livro mostra que a escrita não é apenas mecânica com fórmulas prontas para a execução; a produção de um gênero é sobretudo construção de conhecimento.


Paula Michely

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Contos de Enganar a morte


Como estamos na semana de Finados, não conheço nenhum outro tema melhor para se tratar dentro desse contexto que " A MORTE". Muita gente tem medo da morte, porém não adianta temê-la, porque uma coisa é certa: ela sempre vem, para alguns mais cedo para outros mais tarde, mas vem. O curioso é que a morte sendo uma trabalhadora tão assídua em seu emprego, tão responsável com seus horários, não faz distinção de ricos ou pobres, mas o povo sempre faz questão de xingá-la e ninguém a quer por perto. Um livro interessante para acabar com essa visão tão pessimista da morte é Contos de Enganar a Morte, de Ricardo Azevedo, da editora Ática. As ilustrações feitas pelo próprio autor são em preto e branco, em traço firme e grosso, lembrando muito xilogravuras de literatura de cordel. O livro traz quatro saborosas narrativas populares brasileiras de pessoas que não queriam morrer e inventaram truques astuciosos para escapar da morte.

Os quatro contos são excelentes e a maneira da escrita de Ricardo Azevedo utiliza um tom cômico, o que certamente, agrada aos leitores de bom humor. Por esse motivo, humanos bem-humorados e mal-humorados, a dica é: "Não é preciso se preocupar com a morte. Ela é garantida e ninguém vai ser bobo de querer roubá-la da gente. O importante é cuidar da vida, que é boa, bela, rica, preciosa, porém frágil. Ela sim, pode ser roubada." (ditado popular)


Resumo dos contos:

O homem que enxergava a morte” traz a história de um homem que convida a Morte para ser madrinha de seu filho e em troca ela lhe concede o dom de adivinhar se um doente irá morrer ou viver. Com isso ele se torna um médico rico e famoso, mas é claro que quando chega a hora dele mesmo bater as botas a história é outra.

O último dia na vida do ferreiro” narra a história de um ferreiro que não se seduz com falsas propostas de riqueza feitas pela Morte. Depois de ajudar uma velha necessitada, tem seus desejos atendidos e assim engana a Morte por duas vezes. Mas como sempre no final seu destino é esticar as canelas, como todo mundo.

O moço que não queria morrer” é a história de um jovem que conhece a Morte por acaso e resolve procurar um lugar onde ninguém morria. Ele acaba achando, mas a imortalidade terá uma condição.


A quase morte de Zé Malandro” conta a história de um jovem folgado que um dia ganha o dom de ser invencível no baralho, uma figueira que quem sobe nela só desce com seu consentimento, e um banco e um saco de pano que quem se sentar ou entrar nele só sai também com seu consentimento. E com isso engana a Morte e o próprio Diabo. Mas quando chega a hora de entregar a rapadura as coisas não saem do jeito que ele planejou.

Ricardo Azevedo adaptou esses contos populares de modo a levar as crianças e muitos adultos que não aceitam a morte a entender que ela é indispensável, implacável e faz parte da vida. Mais precisamente do fim dela. Para ele, a morte é um assunto que desde cedo deve ser tratado em nossa vida, daí a importância desse livro que a trata com poesia, graça e magia e é uma verdadeira, divertida e apaixonada declaração de amor à vida, a partir das histórias dos seus herois que lutam para vencer a morte.

*Ah e o livro também é riquíssimo para ilustrar diversas aulas sobre: semântica, figuras de linguagem, variação linguística etc.

Por Natália P. J. Santos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Lutar com Palavras (resenha)

Por Késia Mota

Como monitora da disciplina Leitura e Produção de Textos, tenho estudado muito sobre a textualidade. Diversas obras, de diferentes autores, têm servido para a minha orientação e inspiração. Há um livro especial cuja leitura eu recomendo: Lutar com Palavras, de Irandé Antunes, uma autora prática, que usa linguagem clara, e escreve em primeira pessoa.

Aqui no blog, na postagem O autor e a autoria, do monitor de Literatura Portuguesa I, Daniel Costa, abriu-se uma discussão... quer dizer, o Daniel abriu uma discussão sobre o uso de primeira pessoa em textos científicos e acadêmicos. Comentei ali sobre a interessante coincidência, pois uma das características do livro Lutar com Palavras que mais me chamaram a atenção foi exatamente a linguagem leve e clara da autora, que decidiu escrever em primeira pessoa. Considero esta uma escolha acertada, pois a leitura do livro é muito agradável e, como leitora, não me senti nem um pouco desrepeitada.

Quem me conhece sabe que eu não gosto de autores que vivem citando a si próprios e que usam um discurso arrogante, como se fossem os donos da verdade. O uso da primeira pessoa é perigoso por isso, pois pode parecer arrogância. Não é o caso aqui. Ao contrário, a minha sensação foi de estar lendo algo que foi escrito especialmente para mim, como se alguém estivesse conversando comigo, dando dicas de como escrever bem. Este é o efeito positivo da escrita de textos técnicos em primeira pessoa.

Marcuschi (com certeza um lingüista que está na minha lista dos dez mais) escreveu, sobre Lutar com Palavras: “Tudo o que você queria saber sobre como construir um bom texto sem se estressar”. E é isso mesmo. O livro ensina como escrever, e ensina de forma tranquila, sem cansar o leitor com numerosas classificações e nomenclaturas esdrúxulas. Desde que o li, e depois reli fazendo marcações, vivo indicando pra todo mundo. A professora Evangelina Faria deve ter sentido o mesmo, pois foi ela quem me indicou primeiro.

A minha terceira leitura do livro foi super tranquila, pois o número de marcações foi bem pequeno. Você vai perceber – e Irandé Antunes adverte sobre isso – que muitas informações são repetidas. A meu ver, isso é bacana porque prova que a autora coloca em prática de forma muito eficiente aquilo que prega. Não é fácil repetir informações sem tornar o texto enfadonho. Aliás, muitos textos são enfadonhos mesmo sem repetir nada.

A leitura de Lutar com Palavras é uma boa não só para os interessados no estudo de línguas, mas também de literatura. Certamente contribui para a boa leitura e produção de textos, seja qual for o tipo e o gênero textual envolvido e seja qual for o estilo da linguagem: formal ou informal. Particularmente, estou feliz em ter tido contato com esta obra agora. Quer dizer, o quanto antes melhor. Leia e você entenderá o que eu quero dizer.

(Veja o sumário e a apresentação do livro, aqui.)

domingo, 2 de agosto de 2009

Drummond e o carnaval

Raíra Maia

Aliando tradição e modernidade, Carlos Drummond de Andrade é considerado um dos maiores nomes da poesia nacional, sendo possível apontá-lo como responsável por grandes inovações na literatura brasileira do século XX. O poeta mineiro, que "bebeu nas águas" dos Modernistas de 22, deixou-nos uma obra que oscila entre inquietudes poéticas, a partir de sua preocupação estética, consciência de linguagem e abordagens de cunho social, reconhecido, assim, também como uma poeta "engagée".

Em seus primeiros livros, convergências entre o Movimento Modernista e Drummond podem ser apresentadas tendo em vista o tratamento anticonvencional, exercido pelo poeta, apesar de temáticas que, de certa forma, já estavam "consolidadas" pela tradição, como sentimentalidades e a espiritualidade do mundo.

O poema "Um homem e seu carnaval", presente no livro "Brejo das almas", retrata o trabalho com a palavra poética, através de técnicas "modernas" de composição e abodagem dos confllitos entre o indivíduo (o "eu") e o mundo.

"Um homem e seu carnaval" é composto por versos sem rimas e sem métrica fixas, contudo a presença de enjambement proporciona as continuações e linearidades sintático-semânticas do poema. Na primeira estrofe, composta por nove versos, podemos perceber do verso 5 ao 8 a aliteração da consoante "s"; já na segunda estrofe, composta por dez versos, há predomínio das consoantes oclusivas "p", "b" e "t" nos versos 1 ao 3.

Por tratar-se de um poema fanopáico, isto é, em que existe a preponderância das imagens ao longo do texto, podemos afirmar que a construçao poética relaciona-se diretamente com tais imagens e com a própria temática exposta. Sendo assim, apontamos que a aliteração da consoante "s", na primeira estrofe, sugere uma isomorfia, uma vez que a sonoridade deste fonema remete-nos ao contexto em que a voz poética está inserida, espaço este caracterizado pela folia do carnaval: barulho, multidão, danças... Da mesma forma ocorre na estrofe seguinte, quando o eu lírico diz: "O pandeiro bate/ é dentro do peito/ mas niguém percebe" as consoantes aqui em destaque proporcionam a visão e a sonoridade dos batuques e das agitações do carnaval.

A terceira estrofe inicia-se com a mesma expressão que abre o poema "Deus me abandonou no meio..." contudo, nesta última estrofe, há uma "transfiguração" dos espaços e das personagens na continuidade do texto: os elementos do carnaval - representados, inicialmente, pelas figuras da baiana e da egípcia - são substituídos por matérias depreciativas, como "peixes sulfúreos" e "ondas de éter", revelando-nos uma suposta inquietação, ou inadequação do eu lírico àquele ambiente. Para reforçar esse sentimento de não correspondência à situação, sublinhamos que um dos aspectos drummondianos mais conhecidos é esta oposição do eu com o mundo.

Esse sentimento de o eu lírico estar "sem olhos, sem boca, sem dimensões" diante de uma determinada circunstância foi analisado por A. Candido como uma ideia que se abrange e evolui para um desentendimento geral do sujeito em relação ao outro: "Esta ideia vai aumentando até que do mundo avesso (do obstáculo e do desentendimento) surja a ideia social do 'mundo caduco', feito de instituições superadas que geram o desajuste e a iniquidade" Ou seja, em um situação incomunicável, de afogamento no rio entre peixes sulfúreos.

Assinalamos que existem certas marcas no poema, em uma espécie de mistura entre os sentimentos do sujeito e os do carnaval, que retratam a realidade da carnavalização e todos os seus paradoxos. O eu lírico ao declarar "Estou perdido"; "o pandeiro bate/ é dentro do peito"; " Eternas namoradas/ riem para mim" "Impossível perdoá-las/sequer esquecê-las"; "grandes braços, largos espaços/eternamente" traduz o mundo carnavalesco - discutido por Bakhtin - em que nos deparamos com situações de troca/anulação de identidades, conflitos sociais e a voz do outro que pode ser ouvida nesse contexto de um cotidiano de "ponta-cabeça".

Desta forma, o sujeito situado numa festa de carnaval, apesar de sua suposta inadequação (chamamos atenção para a possibilidade de tal sujeito ser a representação do poeta, tendo em vista a figura consolidada de isolamento e solidão e também pela referência ao detrimento da poesia na sociedade "Pobre poesia"), adquire as contradições da festa e reflete tais esperiências de gozo e desordem na estrutura do poema, como podemos demonstrar nos últimos versos: "curvas curvas curvas/ bandeiras de prétitos/ pneus silenciosos/ grandes braços largos espaços/eternamente", que retratam todo o movimento de pessoas, a fuga do cotidiano e o jogo de prazer e de exaltação do eu lírico que penetram nas entrelinhas do poema.